quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Como a mídia 'mainstream' branqueia a al-Qaeda e os Capacetes brancos na Síria (4/4), por Eva Bartlett

Parte 4/4

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Eva Bartlett POLITICA SOCIEDADE 

O The Guardian branqueia a imagem dos Capacetes Brancos
Que temas poderiam ter sido investigados pelo The Guardian, caso a história de Solon não estivesse pré-determinada e caso ela tivesse abordado o tema de forma honesta com o intuito de deveras investigar os Capacetes Brancos?

- Solon foi muito infeliz na sua escolha de sublinhar o vídeo "mannequin challenge" dos Capacetes Brancos, escrevendo que o vídeo tinha sido "tirado do seu contexto". E qual era o contexto? Que os Capacetes Brancos, supostamente, de forma frenética trabalham a tempo inteiro resgatando civis sob constantes bombardeamentos e que ainda assim têm tempo para realizar um vídeo encenando um heróico resgate? Este vídeo revela o mais que óbvio facto de que os Capacetes Brancos podem claramente produzir muito convincentes vídeos de "resgates". Mas Solon ignora este facto, visto que este não encaixa na sua russofóbica estória baseada em vazio. Mais, eu não consigo imaginar os socorristas palestinianos com quem trabalhei desperdiçando precioso tempo produzindo tão absurdo vídeo. 

- Apesar do lema dos Capacetes Brancos ser: "salvar uma vida é salvar a humanidade inteira", membros desta organização participaram de forma voluntária na execução de civis. Quanto a Solon, esta escreveu que os membros dos Capacetes Brancos apanhados com armas na mão ou pousando sobre cadáveres ou entoando cânticos da Al-Qaeda  eram casos "isolados" e "malvados", apesar da esmagadora quantidade de provas no sentido contrário. E a melhor parte? Não foi a Rússia que os fotografou, as fotos vêm das suas próprias contas de redes sociais, nas quais eles expuseram, muito orgulhosos, a sua lealdade aos grupos terroristas

- Na sua tentativa de explicar a acusação de "malvados", Solon trás à conversa Raed Saleh, o líder dos Capacetes Brancos, mas não informa que Raeh Saleh viu negado o seu pedido de entrada em território norte-americano em Abril de 2016 e que, Mark Toner, porta-voz do departamento de estado dos EUA, afirmou que aquele tem ligações a extremistas

Aqui está um exemplo bem perturbante de um "malvado" actor com ligações à liderança dos Capacetes Brancos: 
"Muawiya Hassan Agha estava presente em Rashideen, e mais tarde ficou conhecido pela sua infame participação na execução de dois prisioneiros de guerra em Aleppo. Devido ao seu excepcionalmente mau comportamento,  Agha foi supostamente despedido dos Capacetes Brancos, embora depois tenha voltado a ser fotografado na companhia de membros dos Capacetes Brancos. Agha foi também fotografado comemorando a "vitória" da Frente Al-Nusra em Idlib ".

- Os soldados que o The Guardian chama de "combatentes pró-Assad" são na realidade membros das Forças Armadas Sírias. O léxico é importante e, ao denegrir membros das forças armadas do país, o The Guardian põe-se a jogar um muito velhinho e pouco imaginativo jogo: sacar da cartada lexical por norma utilizada por países membros da ONU que violam o protocolo desta organização e, na sede desta, apelidam o governo sírio de "regime" (algo que Solon também faz...) em fez de "governo".

- Não é a totalidade do Conselho de Segurança da ONU que acredita que a Síria cometeu os crimes oas quais Solon se refere, mas sim uma parte desses membros que têm um admitido interesse em derrubar o governo sírio.

A cartada química
Numa tentativa de legitimar os Capacetes Brancos e de deslegitimar aqueles que os põem em questão, o artigo do The Guardian apresenta como se fossem factos as alegações de que o governo sírio teria usado armas químicas contra o seu povo em Khan Shaykhoun a Abril de 2017, e acrescenta que os Capacetes Brancos apresentaram provas válidas sobre o facto e que eu e Vanessa Beeley somos umas das "vozes cépticas mais ruidosas" contra a narrativa oficial.

 

De forma divertida, de acordo com o artigo do canal al-Jazeera do Catar que o The Guardian forneceu para respaldar a afirmação de culpabilidade do governo sírio (em vez de fornecer o Relatório da ONU de Setembro de 2017, em si mesmo questionável, e uma leitura bem mais longa para Solon): (destacado a negrito por mim) 
"Todas as provas disponíveis levam a Comissão a concluir que existem bases razoáveis para acreditar que as forças sírias largaram uma bomba que dispersou gás sarin sobre Khan Shaykhoun."

Bases razoáveis para acreditar não é exactamente uma confirmação de prova, é apenas uma crença.

O mesmo artigo realça que os investigadores não se deslocaram até à Síria e que "as suas conclusões baseiam-se em fotografias de fragmentos das bomba, imagens de satélite e testemunhos."

Testemunhos vindos de uma zona controlada pela al-Qaeda? Muito credível. Mustafa al-Haj Yussef, o líder dos Capacetes Brancos em Khan Shaykhoun, é um extremista que não esconde o seu apoio às acções da al-Qaeda. Como escreveu Vanessa Beeley:
"Yussef apelou ao bombardeamento de civis, à execução de todos os que não jejuarem durante o Ramadão, à execução de todos os que forem considerados Shabihas, ao assassínio de soldados sírios e à pilhagem dos seus pertences... Ele claramente apoia a Frente al-Nusra, uma organização internacionalmente considerada ser terrorista, e apoia o Ahrar Al Sham… Yussef está muito longe de ser neutral, imparcial ou humanitário."
Na sua análise inicial à declaração de Abril de 2017 da Casa Branca a propósito de Khan Shaykhoun, Theodore Postol,  Professor Emérito de Ciência, de Tecnologia e de Política de Segurança Nacional no MIT, chegou à conclusão que: (destacado a negrito por mim) 
"Acredito que pode ser demonstrado, sem nenhuma margem de dúvidas, que o documento não fornece nenhum tipo de prova de que o governo dos EUA tenha conhecimento concreto de que o governo sírio seja responsável pelo ataque químico de Khan Shaykhun (na Síria, entre as 6 e as 7 da manhã do dia 4 de April de 2017).
As análises de Postol levam a concluir que as supostas provas
"apontam para um ataque que foi executado por indíviduos no solo, e não a partir de um avião, ma manhã de 4 de Abril", e realçam que "o relatório não tem absolutamente nenhuma prova de que este ataque tenha sido o resultado de uma bomba lançada do ar."
O jornalista de investigação Seymour Hersh analisou também as acusações oficiais, e reparou que as alegações realizadas pela MSF contradizem a versão oficial que acusa o governo sírio de ter bombardeado a área com gás sarin. Hersh escreveu: (destacado a negrito por mim)
"Uma equipa dos Médicos Sem Fronteiras (MSF), tratando vítimas do ataque de Khan Sheikhoun numa clínica 60 km a norte, relatou que 'oito pacientes mostravam sintomas de pupilas contraídas, espasmos musculares e defecação involuntária, típicas reacções à exposição a um agente neurotóxico como o gás sarin e compostos similares'. A MSF visitou também outros hospitais que tinham recebido vítimas e descobriu que alguns pacientes 'cheiravam a lexívia', sugerindo que estes tinham sido expostos ao cloro.' Ou seja, os factos sugerem que houve mais do que um químico responsável pelos sintomas observados, o que não teria sido o caso se de facto tivesse sido a Força Aérea Síria a largar uma bomba com gás sarin (tal como insistem alguns activistas da oposição), visto que uma bomba com gás sarin não tem percussão ou poder de ignição para desencadear uma explosão secundária. A gama de sintomas é, no entanto, consistente com a libertação de uma mistura de produtos químicos, incluindo cloro e organofosforados utilizados em muitos fertilizantes, os quais podem causar efeitos neurotóxicos semelhantes aos do gás sarin ".

O segundo artigo ao qual Solon faz referência é um artigo do New York Times que classifica o relatório de "investigação politicamente independente". Isto deve levar os leitores a fazer uma pausa para darem uma gargalhada, já que o mecanismo de investigação incluiu a OPAQ, que é financiada de forma bem questionável, e que, por entre os entrevistados nesta investigação, havia socorristas da al-Qaeda.

Em relação ao relatório em questão, o Professor Marcello Ferrada de Noli (fundador e presidente da Swedish Professors and Doctors for Human Rights ), em Novembro de 2017, refutou-o e classificou-o de "impreciso" e de "politicamente parcial". Aqui ficam algumas das suas afirmações:  (destacado a negrito por mim)
- O mesmo autor do Mecanismo de Investigação Conjunta reconhece que os rebeldes de Khan Shaykhun entretanto destruíram provas ao encher a "cratera" de impacto com cimento. Por que é que os "rebeldes" o fizeram e que consequências tiveram esta sabotagem sobre as investigações, são questões que não foram levantadas pelo relatório." 
- "Ao reconhecer que Khan Shaykhun estava na altura sob controle de al-Nusra, o relatório do Mecanismo de Investigação Conjunta demonstra outra contradição metodológica: a de que a al-Nusra e os seus aliados jihadistas, ao controlar a área, controlavam também a informação "oficial" vinda de Khan Shaykhun sobre o alegado incidente. E isto exigiria um interrogatório sobre a confiabilidade/credibilidade (parcialidade) das principais fontes que o comité usou nas suas alegações ".
@Syricide pegou numa das mais alarmantes irregularidades alegadas pelo Mecanismo de Investigação Conjunta [JIM, em inglês], tuitando:

Syricide
(TRADUÇÃO: 57 "pacientes" chegaram a 5 hospitais para serem tratados ANTES do incidente ter ocorrido em Khan Shaykhun)

Até o The Nation publicou em Abril de 2017 um artigo insistindo na necessidade de se fazer uma verdadeira investigação sobre as reivindicações de uso de armas químicas, fazendo referência à investigação de Postol e pondo em relevo o seguinte ponto: (destacado a negrito por mim)
"Philip Giraldium antigo funcionário da CIA e dos serviços de informação do exército, disse no dia 6 de Abril a um apresentador de rádio (Scott Horton) que esteve ouvindo o que têm a dizer fontes no terreno no Médio Oriente, pessoas que estão intimamente familiarizadas com as informações disponíveis, pessoas essas que afirmam que a base da narrativa que temos ouvido sobre sírios e russos usando armas químicas é uma fraude."

Giraldi salientou também que 'membros da agência [da CIA] e alguns militares a par das informações disponíveis estão enlouquecendo devido a isto, pois, basicamente, o que Trump fez foi desvirtuar aquilo que de facto aconteceu em Khan Shaykhun. Giraldi informa que estas fontes dentro das foras armadas e dos serviços de inteligência "estão espantadas com a forma com que esta invenção tem  sido tratada pela administração norte-americana e os media do país."

O mesmo artigo inclui as palavras do ex-embaixador do Reino Unido na Síria, Peter Ford, quem afirmou:
"isto desafia a crença de que ele não teria levantado esta questão se não fosse por uma razão de vantagem militar." Ford afirma acreditar que as acusações contra a Síria "simplesmente não são credíveis."

Portanto, de facto não, alguns dos mais bem informados e ruidosos cépticos não eram nem eu nem Beeley, mas sim Theodore Postol (professor emérito do MIT), o jornalista de investigação Seymour Hersh, o ex-embaixador do Reino Unido Peter Ford, e o ex-funcionário da CIA e dos serviços de informação do exército Philip Girldi, que não são propriamente exemplos de vozes "marginais". 

O jornalista de investigação Robert Parry, em Abril de 2017, escreveu sobre a táctica de deflexão do New Iorque Times (também empregue por Solo): (destacado a negrito por mim)
"Em vez de se focar na dificuldade em avaliar o que aconteceu de facto em Khan Sheikhoun, cidade sobre controlo da al-Qaeda da Síria e donde, portanto, toda e qualquer informação daí proveniente deva ser considerada altamente suspeita, Rutenberg apenas argumentou que a sabedoria tradicional ocidental só pode estar certa.
Para desacreditar possíveis cépticos, Rutenberg associa-os a uma das personalidades de rádio mais excêntricas e adepta de "teorias da conspiração", o senhor Alex Jones, o que mais não é que o exemplo mais recente da dependência do Times por McCartistas falácias, utilizando não apenas a culpa por associação, mas refutando também o razoável cepticismo de alguém associando-o a alguém de outro que, num contexto completamente diferente, expressou algum tipo de cepticismo irracional."

E isto soa familiar. Vejam o que escreveu Solon:
"Beeley com muita frequência crítica os Capacetes Brancos na qualidade de editor do site 21st Century Wire, site criado por Patrick Henningsen que é também editor do Infowars.com.”

Infowars é o site de Alex Joens, e Henningsen há muitos anos que deixou de trabalhar para o Infowars.

Solon continuou este tópico utilizando outro argumento non sequitur sobre Beeley e o encontro do US Peace Council com o presidente sírio em 2016, factos irrelevantes quer para o tema dos Capacetes Brancos quer para o tema dos alegados ataques químicos. Mas irrelevância é o que os media corporativos fazem de melhor hoje em dia. 

A escritora de estórias do The Guardian não realizou trabalho de investigação absolutamente nenhum sobre as falácias que ela apresenta como sendo factos. 

Fontes desprovidas de integridade citadas por Solon 
Além das já referidas, é interessante dar uma vista de olhos pelas outras fontes que Solon utilizou na sua aveludada estória:
Scott Lucas, cuja fidelidade aos Imperialistas é evidente no feed do seu twitter, uma colecção de russofobia e iranianofobia. Lucas contou com as palavras de um apoiante de terroristas como Mustafa al-Haj Youssef para escrever o seu artigo de Agosto sobre os Capacetes Brancos (aparentemente plagiado por Solon). Solon contou com as difamações de Lucas para descredibilizar o trabalho e ferir a integridade daqueles que Solon ataca. Isso e o facto de Lucas ser um professor (de forma a incluir uma tentativa de legitimidade ao artigo), foram as únicas razões para a inclusão deste na estória do The Guardian.

-Amnistia Internacional, o assim chamado grupo de direitos humanos que, como Tony Cartalucci sublinhou em Agosto de 2012, é o "Departamento de Propaganda do Estado Norte-Americano", e recebe de facto dinheiro de governos e de interesses corporativo-financeiros, incluindo George Soros da Open Society, um "criminoso financeiro condenado":

Não são apenas "conspiracionistas como Cartalucci que têm escrito sobre o lado negro da Amnistia Internacional. Ann Wright, que serviu 29 anos como coronel das Forças Armadas e das Reservas dos EUA e 16 como diplomata norte-americana em vários países, incluindo o Afeganistão, e que "renunciou em 2003 em protesto contra a guerra do Iraque", e que "retornou ao Afeganistão entre 2007 e 2010 em missões de recolha de provas", também escreve sobre o tema. A sua co-autora foi Coleen Rowley, "agente especial do FBI durante quase 24 anos", conselheira legal do FBI Field Office em Minneapolis entre 1990 e 2003, e uma denunciante "de algumas das falhas do FBI pré-9/11". Juntas escreveram, em Junho de 2012, sobre "o fascínio da Amnistia Internacional (AI) pelas guerras dos EUA". 

Francis Boyle, um professor de direito internacional que chegou a ser membro do quadro norte-americano da AI, escreveu sobre o papel da organização no incitamento à guerra. Em Outubro de 2012, escreveu sobre o belicismo da AI em relação ao Iraque (quando apoiou a estória da morte de bebés em incubadoras inventada pela filha do embaixador do Kuwait), e sobre as suas próprias tentativas de informar a AI de que "esse relatório não deveria ser publicado visto que não estava correcto." Francis Boyle salientou:
"Essa guerra genocida levada a cabo pelos EUA, o Reino Unido e a França, já agora, matou durante os meses de Janeiro e Fevereiro de 1991 pelo menos 200.000 iraquianos, metade dos quais eram civis. A AI terá para sempre o sangue do povo iraquiano nas suas mãos!"
As palavras de despedida de Boyle incluem:
"... com base nos meus mais de dezasseis anos de experiência lidando com a AI Londres e a AI USA ao nível mais alto, é para mim claro que ambas as organizações manifestam um padrão consistente e uma prática de seguir as linhas daS políticas estrangeiras dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha e de Israel. ... Efectivamente, a Amnistia Internacional e a AI USA funcionam como ferramentas do imperialismo, do colonialismo e do comportamento genocida dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha e de Israel."
- Eliot Higgins, sobre quem o premiado jornalista de investigação Gareth Porter escreveu:
"Eliot Higgins é um membro não residente do militantemente anti-russo Atlantic Council financiado pelo departamento de estado, e não possui conhecimentos técnicos em munições."
O jornalista britânico Graham Phillips escreveu sobre Eliot Higgins em Fevereiro de 2016. Respondendo à sua questão sobre quem é Eliot Higgins, Phillips afirmou:
"Ele nunca acabou a universidade, tendo abandonado o Southampton Institute of Higher Education. Quando interrogado acerca dos seus estudos universitários, a sua resposta foi 'jornalismo...julgo eu'. ... Higgins sempre foi completamente honesto em relação à sua falta de conhecimentos técnicos.

A obsessão do The Guardian pela Rússia
A esta altura do campeonato já deveria ser bem claro que o objetivo da estória de Solon do dia 18 de Dezembro não era a análise das inúmeras questões (fatos) sobre as ligações dos Capacetes Brancos a grupos terroristas na Síria, e já não deveria ser questionável o financiamento dos heroicos voluntários proveniente de fontes ocidentais interessadas em ver a Síria desestabilizada e o seu governo substituído. 

Mas, pelo contrário, o objetivo foi o de branquear o comportamento desse grupo de resgate, e o de demonizar aqueles que como nós dão nas vistas, e também o de acrescentar mais russofobia (apesar da intervenção militar russa na Síria ser legal, ao contrário da da coligação liderada pelos EUA, da qual o Reino Unido de Solon faz parte).

Desde a última troca de mensagens entre nós em Outubro até à publicação da muito esperada colecção de calúnias do The Guardian, Solon produziu (ou co-produziu) 24 histórias para este jornal, das quais 9 foram ataques anti-Rússia. Este gênero de histórias inclui palavreado como "operativos russos", "interferência russa", "trolls russos", "propagandistas russos" e "bots russos". 

Será, a Baronesa Cox (da Câmara dos Lordes britânica, e que recentemente se expressou em favor da [legal] intervenção russa na Síria), uma "conspiracionista" financiada pelo Kremlin? Leia o que disse ela: (destacado a negrito por mim)
"E o 4ª ponto que eu gostaria de referir, especificamente a vocês, é o muito real apreço sentido por toda a gente na Síria pelo apoio que a Rússia oferece na erradicação do ISIS e na erradicação de todos os outros grupos religiosos islâmicos." 

Cox, que visitou a Síria, certamente não é uma agente do Kremlin ou de Assad. Provavelmente, apenas terá ouvido as vozes de sírios na Síria, como o resto de nós propagandistas russos que se deram ao trabalham de se deslocar (repetidamente) até à Síria e aí conversar com civis sírios. 

Esta é a primeira parte de um grande artigo. A Parte 2 virá em breve.

Eva Bartlett, 06.01.2018

Parte 1

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Como a mídia 'mainstream' branqueia a al-Qaeda e os Capacetes brancos na Síria (3/4), por Eva Bartlett

Parte 3/4

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Eva Bartlett POLITICA SOCIEDADE 

Credenciais, por favor: O que é o jornalismo?
Em relação à questão do The Guardian quanto à minha competência enquanto jornalista, gostaria de destacar o seguinte.

Eu comecei fazendo reportagens a partir do terreno, na Palestina, em 2017, primeiro através do meu blog, e mais tarde publicando artigos em várias outras mídias online.

Em 2007, passei 8 meses na Cisjordânia ocupada na Palestina, numa das áreas mais perigosas, onde palestinos são diariamente maltratados, raptados e mortos pelo exército israelense e por colonos judeus ilegais. Aí eu comecei a blogar, documentando os crimes realizados utilizando testemunhos, entrevistas na primeira pessoa, as minhas próprias experiências, fotos e vídeos.

Depois de ter sido deportada da Palestina pelas autoridades israelenses em Dezembro de 2007, em 2008 viajei de barco do Chipre até Gaza e documentei não apenas as diárias agressões israelenses contra homens desarmados, mulheres, idosos e filhos de camponeses e de pescadores, mas também os efeitos do devastador cerco total de Gaza, os esporádicos bombardeios e incursões terrestres por parte de Israel e, claro, os dois grandes massacres de Dezembro 2008/Janeiro 2009 e de Novembro 2012

Na guerra de 2008/2009 contra civis palestinos, eu estava no terreno ajudando socorristas no norte de Gaza (verdadeiros socorristas e não atores encenando) sob bombardeios e sob um fogo intenso de franco-atiradores. Eu estava também num piso no topo de um edifício de mídia na cidade de Gaza que foi bombardeado enquanto eu lá estava presente. Eu permaneci em Gaza depois da matança ter acabado, recolhendo horríveis testemunhos e documentando os crimes de guerra israelenses como os  assassinatos de crianças, a massiva utilização de Fósforo Branco sobre civis, a utilização de civis com escudos humanos e o uso (e assassinato) de médicos como alvos de ataque.

Veja esta link para obter mais informação detalhada destes documentos, com muitos exemplos, e muito mais documentação recolhida durante o massacre israelense de palestinos em Novembro de 2012, assim como relatos detalhados das minhas investigações resultantes de sete viagens pela Síria. 

Enquanto questionava as minhas credenciais enquanto jornalista de investigação sobre o Oriente Médio, o The Guardian inadvertidamente atribuiu a produção da história a uma jornalista de São Francisco especializada em peças de pelúcia, moda e análise Russofóbica, a qual tem visivelmente pouca ou nenhuma compreensão sobre o que está acontecendo na Síria.

Discursando sobre "a propaganda que é com frequência disfarçada de jornalismo", o premiado jornalista e realizador John Pilger afirmou: (destacado em negrito por mim)
"Edward Bernays, o proclamado pai das relações públicas, escreveu sobre o governo invisível que é aquele que de fato governa um país. Referia-se ao jornalismo, à mídia. Isto foi há quase 80 anos atrás, pouco depois do jornalismo corporativo ter sido inventado. É uma história que poucos jornalistas conhecem ou falam sobre, e teve o seu início com o advento da publicidade corporativa. 
À medida que as novas corporações foram tomando o lugar da imprensa, algo chamado de "jornalismo profissional" foi inventado. De forma a atrair grandes anunciantes, a nova imprensa tinha de parecer ser respeitável, pilar do establishment, objetiva, imparcial, equilibrada. As primeiras escolas de jornalismo foram criadas, uma mitologia da neutralidade liberal foi criada ao redor dos jornalistas profissionais. O direito à liberdade de expressão passou a ser associada aos novos media. 
... Tudo isto não passava de um embuste. Aquilo de que o público não foi informado, foi que, de forma para poderem ser profissionais, os jornalistas tinham de assegurar que as suas notícias e opiniões fossem dominadas por fontes oficiais. E isto continua verdade até hoje. Vasculhe o New York Times num dia  qualquer escolhido ao acaso, e verifique as fontes dos seus principais artigos de política interna e externa. Descobrirá então que todos esses artigos são dominados pelos interesses de governos e outros poderes. É esta a essência do jornalismo profissional."

Num post de Facebook público, o jornalista Stephen Kinzer escreveu:
"Acontece que concordo com a Eva em relação à Síria, mas, do ponto de vista de um jornalista, a verdadeira importância do que ela faz vai muito além do fato de produzir notícias a partir de um dado país. Ela desafia a narrativa estabelecida - e essa é a essência do jornalismo. Tudo o resto é a estenografia. Aspirantes a correspondentes estrangeiros,  tomem nota!!"

No difamatório artigo do The Guardian, Solon empregou a tática de denegrir a credibilidade de um(a) jornalista de investigação catalogando-o(a) como mero(a) "blogueiro(a)". Na sua estória, Solon utilizou o termo "blogueira" quatro vezes, três delas para referir-se a Vanessa Beeley (que contribui em artigos de análise para uma variedade de mídia online).

No último desses casos, ela citou James Sadri, diretor executivo da Purpose Inc (que opera o projeto de relações públicas do "Syrian Campaign), o qual afirmou a propósito de Beeley: 
"Uma blogueira de um site conspiracionista do 9/11 que apenas visitou a Síria pela primeira vez no ano passado não pode ser levada a sério como uma perita imparcial do conflito."
Relembrem-me quando foi a última vez que Sadri ou Solon lá estiveram? Parece que foi em 2008 no caso de Sadri, e nunca no caso de Solon. Mas eles são "credíveis", enquanto que alguém como a Beeley que desde a sua primeira visita em 2016 já lá retornou em inúmeras ocasiões e em momentos críticos, como a libertação de Alepo, e que falou com civis sírios do leste da cidade anteriormente ocupada pela Al-Qaeda e seus parceiros extremistas, não é credível?

E quanto aos blogueiros, existem muitos escritores e investigadores perspicazes que publicam nos seus próprios blogs (por exemplo, este blog). Contudo, e deixando à parte esta questão, é divertido nota que Solon no seu perfil de LinkedIn apresenta como sua primeira habilidade: blogging ("blogar"). Será ela uma mera blogueira? 

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Em relação ao uso que Solon faz do tema "conspiracionistas", será que ela o reciclou a partir de um artigo do Wired publicado há oito meses atrás? Não há dúvidas queo uso do termo "conspiracionistas" serve o propósito de caricaturar todos aqueles que investigam os Capacetes Brancos como sendo mais um Alex Jones. 

Será ela capaz de ser original? 

castello
4 de Novembro de 2016: A menos de 100 metros do local onde caiu o segundo de 2 morteiros disparados por facções terroristas a menos de 1 km da Estrada Castello. A estrada e o corredor humanitário foram atacados pelo menos 7 vezes nesse dia por essas facções terroristas. Muitos desses que trabalham para a mídia corporativa foram se esconder no ônibus, e foi lhes fornecido capacetes e coletes à prova de bala. Eu permaneci na estrada, sem luxos do gênero. Leia mais sobre este episódio aqui

O The Guardian usa a tática da CIA de "Teorias da Conspiração"
Além de utilizar termos humilhantes, o The Guardian meteu-se no jogo da CIA de utilizar o mal-intencionado termo de "conspiracionistas".

Como afirmou Mark Crispin Miller (professor de comunicação social e escritor) perante uma comissão a Junho de 2017 :
"Teoria da conspiração não foi uma expressão muito utilizada por jornalistas até 1967 quando, de repente, começou a ser utilizada o tempo todo, e cada vez mais é utilizado. E a razão para tudo isto é que a CIA, naquela época, enviou um memorando aos chefes das suas representações em todo o mundo instando-os a usar as suas posições privilegiadas e os seus amigos dentro de meios de comunicação para desacreditarem o trabalho de Mark Lane ...  de escrever livros atacando o Relatório da Comissão Warren.  Mark Lane era um best-seller, e então a resposta da CIA foi a de enviar esse memorando exigindo um contra-ataque, esperando que lacaios obedientes à agência escrevessem críticas atacando este tipo de escritores com o rótulo de "conspiracionistas" e que utilizassem um ou mais dos cinco argumentos especificados no memorando. 

Aposto que Solon recebeu o memorando.

De forma mais aprofundada, o professor James Tracy afirmou:
"Teoria da Conspiração" é um termo que provoca medo e ansiedade nos corações da maior parte das figuras públicas, em particular jornalistas e acadêmicos. Desde a década de 1960, este rótulo tornou-se um dispositivo disciplinar que tem sido incrivelmente efetivo na definição de certos eventos fora dos limites da pesquisa ou do debate. Sobretudo nos EUA, colocar legítimas questões sobre dúbias narrativas oficiais de forma a informar o público (e, consequentemente, o poder político), é visto como um crime que deve ser a todo o custo cauterizado da mentalidade coletiva."

Kevin Ryan, escritor e investigador,  notou que (destacado a negrito por mim):
"Nos 45 anos que precederam a publicação do memorando da CIA, a expressão 'teoria da conspiração apareceu apenas 50 vezes no Washington Post e no New York Times, ou seja, cerca de uma vez por ano. Nos 45 anos após a publicação do memorando da CIA, a expressão apareceu 2630 vezes, cerca de uma por semana."
"... e claro, cada vez que a expressão é utilizada, é sempre num contexto no qual o "conspiracionista" possa ser caracterizado como menos inteligente e menos racional que aqueles que de forma acrítica aceitam as explicações oficiais para a maioria dos eventos. O presidente George Bush e os seus colegas usam frequentemente a expressão "teoria da conspiração" de forma a deter possíveis questões sobre as suas atividades. 

No seu artigo para o The Guardian, Solon incluiu a falácia de que a Rússia está por detrás de tudo.

Em agosto de 2017, Scott Lucas (citado por Solon no seu próprio artigo) escreveu (destacado a negrito por mim):
"Mìdias estatais russas têm levado a cabo uma campanha, sobretudo desde que, em Setembro de 2015, Moscou interveio militarmente."

E no de Solon? (destacado a negrito por mim):
"A campanha para desacreditar os Capacetes Brancos começou ao mesmo tempo em que a Rússia, em Setembro de 2015, interveio militarmente..."

Mas tenho a certeza que é uma mera coincidência.

Investigações iniciais sobre os Capacetes Brancos precedem as da Rússia 
Como já afirmei anteriormente neste artigo, em 2014 e início de 2015, muito antes da mídia russa ter pego pegado no assunto, Cory Morningstar e Rick Sterling já estavam confrontando a história oficial sobre os Capacetes Brancos. 

Morningstar, no dia 17 de  Setembro de 2014, escreveu:
"Purpose, uma empresa de relações públicas de Nova Iorque, criou pelo menos quatro ONG's/campanhas anti-Assad: os Capacetes Brancos, o Free Syrian Voices [3], o The Syria Campaign [4] e a March Campaign #withSyria. ... A mensagem é clara. A Purpose buscava luz verde para a intervenção militar na Síria coberta sob o pretexto de humanitarismo - o oxímero dos oxímeros ".

Foi então que os White Helmets entraram em cena.

No seu artigo do dia 9 de Abril de 2015, Rick Sterling opinou que os Capacetes Brancos seriam um projeto de relações públicas para uma posterior intervenção ocidental na Síria. Segundo ele  (destacado a negrito por mim):
"Capacetes Brancos é o novo nome cunhado recentemente para a 'Syrian Civil Defence'. Apesar do seu nome, a Syria Civil Defence não foi criada por sírios nem exerce funções na Síria. Pelo contrário, foi criada pelos EUA e o Reino Unido em 2013. Alguns civis de zonas controladas por rebeldes foram pagos para irem à Turquia e aí receber algum treino em operações de resgate. O programa era gerido por James Le Mesurier, um ex-militar britânico e um contratista privado cuja empresa tem sede no Dubai."

Depois de ter começado a investigar os Capacetes Brancos por volta de Setembro de 2015 e de ter, em Outubro, revelado os laços destes com criminosos assassinos na Síria, Vanessa Beeley tem de forma implacável perseguido esta organização, as suas mentiras e a sua propaganda e o seu financiamento de pelo menos 150 milhões de dólares (muito mais que o necessário para suprimentos médicos e equipamento de filmagem profissional)

Como salientou o 21st Century Wire (destacado a negrito por mim):
"Reparem que o The Guardian e a Olivia Solon também afirmam que os Capacetes Brancos são apenas "voluntários", o que é uma fulcral deturpação de fatos desenhada para gerar simpatia pelos seus funcionários. Uma pessoa pode pura e simplesmente chamar a isto uma escandalosa mentira, visto que os membros dos Capacetes Brancos recebem regularmente um salário (ao qual, de forma enganadora, o The Guardian chama de "mesada") que é bem mais elevado que o salário médio sírio, detalhe convenientemente ignorado nesta peça de propaganda do The Guardian que parece ter sido feito de encomenda para o Ministério de Negócios Estrangeiros britânico.
... jornalistas do The Guardian como a Solon não devem atrever-se a mencionar que o valor da "mesada" dos Capacetes Brancos é bem superior ao do salário padrão de um soldado do exército que, com sorte, leva para casa 60 ou 70 dólares por mês."

CONTINUA 

Eva Bartlett, 06.01.2018

Parte 2
Parte 4

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Como a mídia 'mainstream' branqueia a al-Qaeda e os Capacetes brancos na Síria (2/4), por Eva Bartlett

Parte 2/4

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Eva Bartlett POLITICA SOCIEDADE 

Resposta ao The Guardian

Em Outubro, uma jornalista de tecnologia (e por vezes de moda) do The Guardian estabelecida  em São Francisco de nome Olivia Solon (que de forma perceptível não compreende de todo a geopolítica do Oriente Médio), enviou-me a mim e a Beeley dois emails praticamente idênticos repletos de assunções para uma "estória" do The Guardian da qual nós haveríamos de ser o foco principal de atenção. Aqui fica a correspondência entre mim e a jornalista Olivia Solon do The Guardian:

E agora a minha breve análise dos emails de Solon, incluindo algumas das suas questões mais controversas desses emails:  

- Quem são os "nós" que Solon menciona? A sua referência a "nós" é indicativo de que esta história não é uma ideia originalmente sua, nem tampouco pesquisada e escrita de forma independente. Partes do artigo, incluindo o título e alguns elementos que destacarei mais tarde no meu artigo, parecem ser reciclagens de partes de outros artigos anteriores, mas enfim, isto que ele faz é jornalismo de copiar-colar. 

- Não é que apenas eu acredite que a narrativa da 'grande mídia' sobre os Capacetes Brancos esteja errada; esta narrativa tem sido desacreditada de forma redundante nos últimos anos. Em Setembro de 2014, Cory Morningstar, um jornalista independente canadense, investigou as forças obscuras por detrás das pomposas Relações Públicas que envolvem os Capacetes Brancos.  Em Abril de 2015, Rick Sterling, um jornalista independente norte-americano revelou que os Capacetes Brancos têm sido financiados por potências ocidentais e geridos por um ex-militar britânico, e salientou o papel destes "socorristas" nos pedidos de intervenção ocidental para a criação de uma zona de exclusão aérea na Síria (mais artigos sobre este abaixo). Tudo isto foi dito meses antes da mídia russa ter começado a escrever sobre os Capacetes Brancos. 

Desde então, Vanessa Beeley produziu uma imensa pesquisa muito bem detalhada, realizando investigações no terreno (na Síria), inclusive recolhendo testemunhos de civis sírios que sofreram experiências (frequentemente horríveis) com os Capacetes Brancos; pôs em evidência que a Defesa Civil Síria existe e têm existido desde 1953, mas que não têm nada a ver com os Capacetes Brancos (os quais se apropriaram indevidamente daquele nome); estabeleceu que o órgão [socorrista] internacional, a organização International Civil Defence sediada em Genebra, não reconhece os Capacetes Brancos como sendo a Defesa Civil Síria; provou que homens agora membros dos Capacetes Brancos roubaram veículos e equipamento da Defesa Civil Síria de Alepo, assim como bens pertencentes a civis; e concluiu que os Capacetes Brancos partilharam com a al-Qaeda um edifício em Bab al-Bairab (Alepo oriental) no qual presenciaram, entre outras situações, a tortura de civis. 

Custa a acreditar que no espaço de tempo de dois meses que passaram entre ter contatado Beeley e ter me contatado, Solon, no decurso das suar certamente exaustivas investigações, não tenha visto este vídeo, no qual é claramente visível membros dos Capacetes Brancos fardados na companhia de apoiadores do terrorista saudita Abdullah Muhaysini. Socorristas não tão "neutros" assim. Mas, no entanto, talvez o tenha feito. Olivia Solon estava disposta a escrever sobre a presença de membros dos Capacetes Brancos em locais de execuções, sobre o fato de pousarem com os pés por cima de corpos de soldados sírios, e empunhando armas, numa daqueles típicas divagações de exceções à regra.

- Quanto ao interesse do The Guardian em relação à minha relação com o governo sírio: Não, não recebi pagamento nenhum, nem presentes nem o que quer que seja de governo nenhum. Pelo contrário, gastei do meu próprio dinheiro para poder visitar a Síria (e organizei uma fundo para doação/arrecadação, e tenho recebido com frequência doações via Paypal e de apoiadores no Patreon que gostam do meu trabalho). Veja o meu artigo sobre este assunto.

Quanto à questão sobre como é que as minhas visitas à Síria e à Coreia do Norte ocorreram, esta não é mais que uma nova e óbvia tentativa de subentender que eu faço parte da folha de pagamento (ou que recebo algum outro tipo de recompensa) de um ou mais dos governos em questão.

Uma das questões do The Guardian tinha como tema a quantidade de seguidores que tenho: "Que você atrai uma vasta audiência online, amplificada por personalidades de direita de grande peso e por aparições na televisão estatal russa." (destacado a negrito por mim)

O nível de seguidores que tenho teve início à precisamente um ano atrás, quando pedi para discursar perante uma comissão das Nações Unidas, algo que o US Peace Council também fez em Agosto de 2016. Foi graças a uma breve discussão (que se tornou viral) entre mim e um jornalista norueguês, que a minha audiência online disparou. Lamento que o que se tornou viral não tenha sido o conteúdo da exposição de mais de vinte minutos feita por mim e outros três convidados sobre a situação em Alepo, cidade que na altura ainda era alvo diário de bombardeios e tiros de franco-atiradores por parte daqueles que o Ocidente considera como "moderados". 

Ainda assim, e dado que tantas pessoas reagiram de forma positiva à referida discussão com o jornalista norueguês (cujo tema foram as mentiras da mídia corporativa e a sua falta de fontes), parece que o público vai começando a perceber que algo não bate certo com a forma com que a mídia corporativa retrata a questão síria. 

A primeira pessoa a editar e partilhar o vídeo em questão (no dia 10 de Dezembro, o dia a seguir à apresentação na comissão) foi o dono da conta Twitter @Walid970721. Entretanto já tive a oportunidade de me encontrar pessoalmente com ele, posso confirmar que esta pessoa não é nem russa nem financiada pelo Kremlin ou qualquer outro governo, e que partilhou o vídeo em questão por achá-lo interessante. De qualquer modo, no dia 10 de Dezembro, e antes de qualquer outra grande mídia russa fazer, a HispanTV havia já partilhado as minhas palavras. Mais, a partilha que obteve o maior número de visualizações foi a da mídia online indiana Scoop Whoop, a 15 de Dezembro. Que depois a mídia russa havia partilhado o vídeo e noticiado o acontecimento, isso não é da minha responsabilidade. E obrigado mídia russa por fazer aquilo que a mídia corporativa ocidental nunca faz.


- Quanto à questão de Solon no The Guardian sobre se eu julgo "que Assad tem sido demonizado pelos EUA de forma a provocar uma mudança de regime". Claro que julgo que sim, assim como fazem todos os analistas e jornalistas que não tenham sido cegados ou obrigados a sê-lo pela narrativa da OTAN. Como escreveu Rick Sterling em Setembro de 2016:
“A desinformação e a propaganda sobre a Síria assumem 3 formas distintas. A primeira é a demonização da liderança síria. A segunda é a romantização da oposição. A terceira forma implica em atacar todos aqueles que ousem questionar as caracterizações anteriores."

Stephen Kinzer, autor e correspondente premiado e colaborador do Boston Globe, escreveu em Fevereiro de 2016: 
"Correspondentes surpreendentemente corajosos presentes na zona de guerra, incluindo norte-americanos, tentam contrariar a versão dirigida por Washington. Com grande risco para a sua própria segurança, esses repórteres tentam trazer à superfície a verdade sobre a guerra síria. As suas reportagens, com frequência, trazem nova luz que contraria a escuridão do reinante pensamento de manada. Ainda assim, para muitos consumidores de notícias, as suas vozes perdem-se por entre a cacofonia. Quem noticia a partir do terreno é normalmente ofuscado pelo consenso de Washington".

No esforço de contrariar as campanhas de demonização da mídia corporativa, muitas vezes escrevi (incluindo as palavras de sírios vivendo na Síria, pormenor de suma importância) sobre o vasto apoio que o presidente sírio tem dentro e fora da Síria. 

No meu artigo de 7 de Março de 2016, fiz menção a um encontro que tive com membros internos e desarmados da oposição, incluindo o representante curdo Berwine Brahim, que declarou:
"Queremos que você transmita [ao mundo] que conspirações, terrorismo e a interferência de países ocidentais uniram apoiantes do governo e opositores no apoio ao presidente Bashar al-Assad".

Nesse mesmo artigo escrevi também: 
"Por todo o lado onde andei na Síria (assim como durante os muito meses que passei em várias partes do Líbano, onde me encontrei com sírios vindo de toda a Síria) encontrei imensas provas do extenso apoio que dão ao presidente al-Assad. O orgulho que eu vi que a maioria dos sírios sente pelo presidente é bem evidente nos cartazes pendurados em casas e lojas, nas canções patrióticas e nas bandeiras sírias durante celebrações, e foi também evidente nas conversas que tive com sírios comuns de todas as fés. A maioria dos sírios pede-me que eu diga exatamente aquilo que vi e que transmita a mensagem de que cabe aos sírios decidir o seu futuro, que eles apoiam o seu presidente e o seu exército, e que a única maneira de parar o derramamento de sangue é fazer com que as nações ocidentais e do Golfo parem de enviar terroristas para a Síria, com que a Turquia pare de atacar a Síria e com que o Ocidente pare com as suas conversas sem sentido sobre "liberdade" e "democracia" e deixe os sírios decidir o seu próprio futuro ".
No meu artigo de Maio escrito no Líbano, depois de ter observado de forma independente o primeiro dos dois dias durante os quais sírios faziam fila à porta da embaixada para votar nas eleições presidenciais, citei alguns dos muitos sírios com quem conversei (em árabe)  
"'Nós o adoramos. Eu sou sunita e não alauita' disse Walid, originário de Raqqa. 'Eles têm medo que as nossas vozes sejam ouvidas', acrescentou... 'Eu venho de Der-ez-Zor,' disse um votante. 'ISIS (Estado Islâmico do Iraque e da Síria) está presente na nossa zona. Nós queremos Bashar al-Assad. Ele é uma pessoa honesta,' continuou, enquanto fazia um gesto com a sua mão." 

E já agora, ninguém me escoltou até à embaixada num veículo do governo sírio. Não, eu apanhei um ônibus e depois caminhei os quilômetros restantes (a estrada estava tão entupida com veículos indo para a embaixada) com sírios que iam a caminho de votar.

Em Junho de 2014, uma semana depois das eleições na Síria, viajei de ônibus até Homs (outrora apelidada de "capital da revolução"), onde encontrei sírios celebrando os resultados eleitorais uma semana depois do evento ter ocorrido, e conversei com sírios que começavam entretanto a limpar e reconstruir casas danificadas pela ocupação terrorista do seu bairro.

Quando regressei a Homs, em Dezembro de 2015, lojas e restaurantes haviam reaberto onde há um ano e meio atrás só havia destruição. As pessoas preparavam-se para celebrar o Natal, algo que não puderem fazer sob o domínio de terroristas. Em Damasco, enquanto assistia a um concerto de um coral, ouvi por acaso pessoas se perguntando com entusiasmo se "ele" estaria ali. No dia anterior, o presidente Assad e a primeira-dama haviam aparecido num ensaio do coro, para surpresa e encanto dos seus membros. E, apesar da igreja se encontrar a uma distância alcançável pelos morteiros dos  "moderados" a oeste (e, na verdade, essa área tinha sido repetidamente atingida por morteiros), muitas pessoas arriscaram vir na esperança de poder haver uma nova visita do presidente.

Estes são apenas alguns dos muitos exemplos de apoio que o presidente da Síria vê, e as tentativas de vilipendiar a ele e a outros membros da liderança síria. Até a Fox News reconheceu seu apoio, referindo-se às eleições de 2014:
"... ressaltou o apoio considerável que o presidente Bashar al-Assad ainda desfruta da população, incluindo muitos da majoritária comunidade muçulmana sunita. ... Sem o apoio sunita, no entanto, há muito que o governo de Assad teria colapsado".

Em relação aos crimes de guerra, a Síria está lutando uma guerra contra o terrorismo, mas a mídia corporativa continua a fabricar falsas alegações e a repetir essas mesmas inventadas e infundadas acusações. Por exemplo, a repetida acusação de que o governo sírio mete civis a morrer de fome. Durante as minhas investigações no terreno, eu revelei a verdade por trás da fome (e dos hospitais destruídos e dos "últimos médicos") em Alepo, em Madaya, em al-Waer, no centro histórico de Homs (2014). De qualquer maneira, a fome e a falta de assistência médica eram da exclusiva responsabilidade de grupos terroristas (incluindo a al-Qaeda) que armazenavam a comida (e os suprimentos médicos). Vanessa Beeley, em maior profundidade, expôs bem essas mentiras sobre Alepo oriental.

Quanto às alegações sobre armas químicas, estas já foram há muito desmontadas pelas investigações de Seymour Hersh (sobre Guta 2013; sobre Khan Sheikhoun 2017) e pela própria Carla Del Ponte (das Nações Unidas) que afirmou que:
"... há suspeitas fortes e concretas mas não ainda provas incontestáveis do uso do gás sarin, tendo em conta a forma como as vítimas foram tratadas. Estas foram usadas por parte da oposição, os rebeldes, e não pelas autoridades governamentais".

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Em relação aos comboios supostamente bombardeados, veja este meu artigo sobre uma alegação do gênero

Sobre se os Capacetes Brancos fizeram ou não algum positivo trabalho de resgate de civis: eles apenas trabalham em áreas ocupadas pela al-Qaeda e outros terroristas a eles associados, de forma que ninguém pode provar se de fato realizaram algum resgate de civis. Contudo, temos inúmeros testemunhos no sentido contrário recolhidos no local, testemunhos sobre os Capacetes Brancos recusando cuidados médicos a civis não afiliados a grupos terroristas.  

Em Setembro de 2017, Murad Gazdiev (muito útil com as suas honestas reportagens a partir de Alepo durante quase todo 2016) apresentou provas de que o quartel-general dos Capacetes Brancos em Bustan al-Qasr (Alepo) estava repleto de Canhões do Inferno (usados para disparar bombas-botijão-de-gás contra os civis e a infra-estrutura de Alepo) e de restos de uma fábrica de bombas. O quartel-general estava localizado numa escola.

Os relatos de Gadiev foram precedidos pelos de Pierre le Corf, um cidadão francês vivendo há mais de um ano em Alepo, que em Março de 2017 havia visitado essa sede dos Capacetes Brancos (e de novo em Abril), e que publicou a descoberta de bandeiras, logotipos e toda uma parafernália de objetos do ISIS e da al-Qaeda dentro da sede dos Capacetes Brancos instalada mesmo ao lado da sede da al-Qaeda (Jabhat al-Nusra). Le Corf escreveu também sobre os seus encontros com civis de Alepo oriental e sobre a opinião destes em relação aos Capacetes Brancos:
"... as duas últimas famílias com quem me encontrei disseram me que eles ajudavam primeiro os terroristas feridos e às vezes deixaram os civis nos escombros. Quando as câmeras estavam filmando, todos ficavam agitados, assim que as câmera eram desligadas, as vidas das pessoas sob o entulho perdiam importância... Todos os vídeos que você viu na mídia vêm de uma ou de outra. Os civis não podiam pagar para ter câmeras ou ligações 3G quando já era difícil comprar pão, apenas grupos armados e seus apoiadores o podiam fazer ".

Em Dezembro de 2016, quando a cidade de Alepo foi libertada, Vanessa Beeley recolheu testemunhos de civis da zona leste até então ocupada pela al-Qaeda. Mais tarde escreveu:
“Quando lhes perguntei se tinham conhecimento da "defesa civil", responderam-me furiosos: "sim, sim, a defesa civil da frente al-Nusra". A maior parte deles quis aprofundar a questão e me explicou que a defesa civil da frente al-Nusra nunca ajudam civis, e que apenas trabalham para grupos armados."

Beeley escreveu também sobre a cumplicidade dos Capacetes Brancos no massacre de civis (incluindo 116 crianças) em Foua e Kafraya em Abril de 2017.

CONTINUA
Eva Bartlett, 06.01.2018

Parte 1
Parte 3

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Como a mídia 'mainstream' branqueia a al-Qaeda e os Capacetes Brancos na Síria (1/4), por Eva Bartlett

Pra situar o povo que pode vir a ler o texto inteiro (em quatro partes), tradução de texto por Luís Garcia (Portugal) sobre a guerra na Síria e sua cobertura pela dita 'grande mídia'. Vou adaptar, dentro do possível, a grafia portuguesa pra do Brasil, embora, particularmente, eu ache desnecessário, mas pode ser que alguém estranhe alguma expressão (exemplo: em Portugal se usa a expressão "media" em vez de "mídia", no Brasil).

Sobre os "Capacetes Brancos", dizem ser um grupo de voluntários a atuar no conflito sírio, só que recebem acusações de ser propaganda de guerra. Algo não incomum numa zona de guerra também nos relatos/versões da grande mídia.
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Como a mídia 'mainstream' branqueia a al-Qaeda e os Capacetes Brancos (White Helmets) na Síria (1/4), por Eva Bartlett

No dia 18 de dezembro de 2017, o The Guardian publicou um vergonhoso ataque contra a jornalista britânica Vanessa Beeley, contra Patrick Henningsen e o seu site de notícias independente '21st Century Wire', contra o professor e escritor australiano Tim Anderson, e contra mim própria. A julgar pelos mordazes comentários à publicação do The Guardian no Facebook, o público no geral não foi na conversa. O The Guardian, assim como o Channel 4 News e o Snopes, branqueiam o terrorismo na Síria, empregam argumentos do tipo non-sequitur, promovem propaganda de guerra, e pura e simplesmente não entendem nada daquilo que se passa:










Como o suposto tema desta estória do The Guardian era o assunto dos socorristas na Síria, vou começar por falar sobre os verdadeiros socorristas que conheço e com quem trabalhei em circunstâncias infernais em Gaza.

Em 2008/9, ofereci-me como voluntária na ajuda a médicos palestinos durante os 22 dias de implacáveis e indiscriminados bombardeios de aviões de guerra e helicópteros Apache israelenses, e de bombardeios vindos do mar, de tanques e de drones. A perda de vidas humanas e de gente ferida foram imensas, com mais de 1.400 palestinos assassinados e milhares de outros mutilados, na sua maioria civis. Usando equipamento rudimentar e degradado (igual ao que se passa com os verdadeiros socorristas na Síria), os médicos palestinos trabalharam de forma incansável, dia e noite, para salvar vidas de civis.

Não houve uma única ocasião em que eu tenha ouvido os médicos (numa Gaza que é sunita) gritar "takbeer" ou "Allahu Akbar" enquanto se resgatava civis, muito menos caminhar intencionalmente sobre cadáveres, posar para vídeos encenados ou qualquer um dos outros revoltantes atos que os Capacetes Brancos (White Helmets) têm sido filmados a fazer na Síria. Estes médicos estavam demasiado ocupados resgatando gente e evacuando antes que viesse outro ataque israelense, e geralmente mantinham um focalizado silêncio enquanto trabalhavam, comunicando apenas o necessário. As únicas ocasiões em que eu me lembro de ouvir gritar enquanto estive ajudando estes médicos foram os gritos de civis que íamos recolhendo e, em particular, os gritos angustiados de um marido ajudando a colocar as partes do corpo da sua esposa desmembrada numa maca para ser levada para a morgue. Os médicos que conheci em Gaza eram verdadeiros heróis. Os Capacetes Brancos, nem pensar. Os Capacetes Brancos são grotescas caricaturas de socorristas.

Um membro dos Capacetes brancos. “Neutro e não armado”?

CONTINUA

Eva Bartlett, 06.01.2018

traduzido para o português por Luís Garcia

versão original em inglês: How the Mainstream Media Whitewashed Al-Qaeda and the White Helmets in Syria

Fonte: blog Pensamentos Nómadas

Parte 2

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Assassinos da SS com doutorado

Em estudo monumental, historiador francês Christian Ingrao ressalta o papel decisivo dos intelectuais na elite da Ordem Negra de Himmler


A imagem que se tem popularmente de um oficial da SS é a de um indivíduo cruel, chegando ao sadismo, corrupto, cínico, arrogante, oportunista e não muito culto. Alguém que inspira (além de medo) uma repugnância instantânea e uma tranquilizadora sensação de que é uma criatura muito diferente, um verdadeiro monstro. O historiador francês especializado em nazismo Christian Ingrao (Clermont-Ferrand, 1970) oferece-nos um perfil muito diverso, e inquietante. A ponto de identificar uma alta porcentagem dos comandantes da SS e de seu serviço de segurança, o temido SD, como verdadeiros “intelectuais comprometidos”.

O termo, que escandalizou o mundo intelectual francês, é arrepiante quando se pensa que esses eram os homens que lideravam as unidades de extermínio. Em seu livro Crer e Destruir: Os intelectuais na máquina de guerra da SS nazista, Ingrao analisa minuciosamente a trajetória e as experiências de oitenta desses indivíduos que eram acadêmicos – juristas, economistas, filólogos, filósofos e historiadores – e ao mesmo tempo criminosos –, derrubando o senso comum de que quanto maior o grau de instrução mais uma pessoa estará imune a ideologias extremistas.

Há um forte contraste entre esses personagens e o clichê do oficial da SS: assassinos em massa fardados e com um doutorado no bolso, como descreve o próprio autor. O que fizeram os “intelectuais comprometidos”, teóricos e homens de ação, da SS foi terrível. Ingrao cita o caso do jurista e oficial do SD Bruno Müller, à frente de uma das seções do Einsatzgruppe D, uma das unidades móveis de assassinato no Leste, que na noite de 6 de agosto de 1941 ao transmitir a seus homens a nova ordem de exterminar todos os judeus da cidade de Tighina, na Ucrânia, mandou trazer uma mulher e seu bebê e os matou ele mesmo com sua arma para dar o exemplo de qual seria a tarefa.

“É curioso que Müller e outros como ele, com alto grau de instrução, pudessem se envolver assim na prática genocida”, diz Ingrao. “Mas o nazismo é um sistema de crenças que gera muito fervor, que cristaliza esperanças e que funciona como uma droga cultural na psique dos intelectuais.”

O historiador ressalta que o fato é menos excepcional do que parece. “Na verdade, se examinarmos os massacres da história recente, veremos que há intelectuais envolvidos. Em Ruanda, por exemplo, os teóricos da supremacia hutu, os ideólogos do Hutu Power, eram dez geógrafos da Universidade de Louvain (Bélgica). Quase sempre há intelectuais por trás dos assassinatos em massa”. Mas, não se espera isso dos intelectuais alemães. Ingrao ri amargamente. “De fato eram os grandes representantes da intelectualidade europeia, mas a geração de intelectuais de que tratamos experimentou em sua juventude a radicalização política para a extrema direita com forte ênfase no imaginário biológico e racial que se produziu maciçamente nas universidades alemãs depois da Primeira Guerra Mundial. E aderiram de maneira generalizada ao nazismo a partir de 1925”. A SS, explica, diferentemente das ruidosas SA, oferecia aos intelectuais um destino muito mais elitista.

Mas o nazismo não lhes inspirava repugnância moral? “Infelizmente, a moral é uma construção social e política para esses intelectuais. Já haviam sido marcados pela Primeira Guerra Mundial: embora a maioria fosse muito jovem para o front, o luto pela morte generalizada de familiares e a sensação de que se travava um combate defensivo pela sobrevivência da Alemanha, da civilização contra a barbárie, arraigaram-se neles. A invasão da União Soviética em 1941 significou o retorno a uma guerra total ainda mais radicalizada pelo determinismo racial. O que até então havia sido uma guerra de vingança a partir de 1941 se transformou em uma grande guerra racial, e uma cruzada. Era o embate decisivo contra um inimigo eterno que tinha duas faces: a do judeu bolchevique e a do judeu plutocrata da Bolsa de Londres e Wall Street. Para os intelectuais da SS, não havia diferença entre a população civil judia que exterminavam à frente dos Einsatzgruppen e os tripulantes dos bombardeiros que lançavam suas bombas sobre a Alemanha. Em sua lógica, parar os bombardeiros implicava em matar os judeus da Ucrânia. Se não o fizessem, seria o fim da Alemanha. Esse imperativo construiu a legitimidade do genocídio. Era ou eles ou nós”.

Assim se explicam casos como o de Müller. “Antes de matar a mulher e a criança falou a seus homens do perigo mortal que a Alemanha enfrentava. Era um teórico da germanização que trabalhava para criar uma nova sociedade, o assassinato era uma de suas responsabilidades para criar a utopia. Curiosamente era preciso matar os judeus para realizar os sonhos nazistas”.

Ingrao diz que os intelectuais da SS não eram oportunistas, mas pessoas ideologicamente muito comprometidas, ativistas com uma visão de mundo que aliava entusiasmo, angústia e pânico e que, paradoxalmente, abominavam a crueldade. “A SS era um assunto de militantes. Pessoas muito convictas do que diziam e faziam, e muito preparadas”. O que é ainda mais preocupante. “É claro. É preciso aceitar a ideia de que o nazismo era atraente e que atraiu como moscas as elites intelectuais do país”.

Fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2017/06/21/cultura/1498069163_921732.html?id_externo_rsoc=FB_BR_CM
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